Café roncando
reverberando
nos cantos
nas teias
rompendo o silêncio
dessa vista alheia
janela indiscreta
prédios brancos
trancos e barrancos
abertura repleta
de céu azul
cru e nu
são cores frias
me pergunto
quantas vidas vazias
(sobre)vivem
nesses quatrocentos nichos
mil e duzentos bichos
encarcerados
longe da sociedade
longe da insanidade
de um homem imundo
líder de loucuras
que em meio ao caótico mundo
nos afasta da cura
antibióticos
não nos livram
dessas vez
não nos privam
da embriaguez
de dias atípicos
de novos medos
de um tom apocalíptico
nesse sinistro enredo
de incógnitas
de não saber
quem vai estar
aqui ou ali
aí ou acolá
no próximo mês
no próximo ano
exibindo uma viva tez
no mano a mano
com a vida
nas ruas
nos abraços
cada um na sua
mas em entrelaço
e eu me pergunto
nos tantos metros
que me separam
aqui nessa mesa amarela
bebendo um café preto
da próxima torre branca
quanto desse ar
que não vejo
que já não encontra beijos
não nos leva aos entes
e nos torna tão ausentes,
é transportador do caos
é o pandêmico hospedeiro
nos fazendo prisioneiros
do nosso próprio mal?
tem um fio de luz
cortando o céu
é o fio da navalha
no qual estamos vivendo
é a vala
comum
é o boom
do momento
é um tento
mostrando que nada vai bem
não tem freio esse trem
mas ainda pode descarrilhar
pode piorar.
-
Acabo de ver uma toalha
ou um tapete, um pano
um engano
não sei
é vermelha
pendurada no quinto andar
do outro bloco
fez a paleta de cores quebrar
aqueceu o gélido visual
mas enfeiou
ou tentou
me mostrar que um contraste pode, ainda, acontecer
enquanto isso sigo
com ela
comigo
aqui dentro
esperando a vida voltar.
quarta-feira, 25 de março de 2020
quarta-feira, 24 de julho de 2019
Reescrita
Tu falava
hoje cedo
da nossa reescrita
desejos e medos
de como passaram
voando
e em negrito
as páginas desse ano
ano bonito
ano corrido
teve peso
teve vontade
(re)descobertas
novos planos
as cobertas
encostando
no chão
a umidade
a unidade
de nós dois
em combustão
aquecendo
as noites do agora
e não demora
a estar na folha anterior
pois aqui a gente escreve
dia a dia
segundo a segundo
e não prescreve
essa história
e cada olhar
é uma nova vitória
e em cada suspiro
a gente renasce
não é um papiro
numa garrafa
jogada ao mar
não estamos à deriva
é um eco
de tudo que fomos
gritando "viva"
dizendo "vão em frente"
"enfrentem"
é um lindo jogo
de palavras que vi
na parede preta
manuscrito por ti
e que eu interpreto
pra hoje
pra amanhã
e ah...
a cada manhã
quando saio do breu
das poucas horas de sono
no aconchego teu
te vejo ali
e renovo o encantamento
desse novo tento
já pego a caneta
e o nosso caderno
e começo
a produção textual do dia
e não meço
o tamanho
dos versos
eu barganho
teus gestos
teu riso
em bilhetes
são post-its
colados
na página que vem
em seguida
colorida
das mesmas cores
que tu me fez ver outrora
em outra estrofe
em outro capítulo
o que eu quero
é seguir
contigo escrevendo
a quatro mãos
mais sins do que nãos
e ir vivendo
nos permitindo
gozar a vida
é descabido
mas acho lindo
o jeito que a gente se toca
quando teu amor sai da toca
e tu vive o nós
e eu te vivo
e nós vivemos
o tu e o eu
e a reescrita
segue o curso
natural da vida
da nossa existência
e reticências...
terça-feira, 26 de março de 2019
Toelho
Vazio
o maior que já senti
dos que vi por aí
(cala)frio
moça
olha só o que eu te escrevi
enquanto lavava a louça
eu meio que morri
lembrando de tudo
desse mundo
que era só nosso
e por mim ruiu
desmoronou
uma dose de Moscow
servida em barril
te daria agora
e beberia outra
seria pouco
não deixaria ir embora
tu
meu par
verdadeiro nu
da minha'lma
vem cá
senta ao meu lado
lá na grama
aqui na cama
acalma
esse tanto
do nosso pranto
que em um dia
já chorei litros
lágrimas arredias
em gritos
silenciosos
aqui dentro
do peito
do apartamento
deu eco no quarto
(isso aqui é uma caixa)
a cada faixa
de todo o Quatro
que atentamente
escutei
e cantei
como se fosse a gente
pelas ruas
errando caminhos
fazendo um ninho
mirando a lua
volta, amor
quero esquentar teus pés
esquecer os egos
e fazer o encaixe
das peças de lego
que dormem grudadas
às vezes quebradas
mas ali
bem juntinhas
tentando montar
algo maior
assim, um lar
mesmo depois
de dois
ou três ou dez
pedaços
desmontados
perdidos
destruídos
e achados
reconstituídos
nos percalços
das idas e vindas
dessa nossa vida.
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019
Festas
Só pra falar
que esses dias
nessas correrias
têm sido um mar
num navegar
gostoso
devagar
teu gozo
tremendo
as paredes
tuas sedes
tremendas
de um copo
de corpos
iluminados
de rosa cobertos
peitos abertos
entrecortados
pelo gelo do ar
fechados
com o selo do amar
e têm sido
também
um doce
preparado
cuidadosamente
em fogo baixo
e contínuo
guardado
caprichosamente
no fundo do tacho
pro destino
teu carinho
teu toque macio
o falar baixinho
os arrepios
o desatar dos nós
o desatar de nós.
E nesse funil
de coisas mil
a se fazer
a se cumprir
nas agendas lotadas
dos olhares cansados
no pouco tempo que resta
nossos fins de dia-noite
com quase zero apronte
são pequenas grandes festas.
que esses dias
nessas correrias
têm sido um mar
num navegar
gostoso
devagar
teu gozo
tremendo
as paredes
tuas sedes
tremendas
de um copo
de corpos
iluminados
de rosa cobertos
peitos abertos
entrecortados
pelo gelo do ar
fechados
com o selo do amar
e têm sido
também
um doce
preparado
cuidadosamente
em fogo baixo
e contínuo
guardado
caprichosamente
no fundo do tacho
pro destino
teu carinho
teu toque macio
o falar baixinho
os arrepios
o desatar dos nós
o desatar de nós.
E nesse funil
de coisas mil
a se fazer
a se cumprir
nas agendas lotadas
dos olhares cansados
no pouco tempo que resta
nossos fins de dia-noite
com quase zero apronte
são pequenas grandes festas.
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019
O canto da busca incessante 3.0
Tento hoje
Reconquistar
Incessantemente
Numa cantoria já rouca
Toada à toa da tenteada louca
A vida que escorreu
Atabalhoada
Nos dedos entreabertos de um guitarrista enferrujado
Outrora, pra fora, entretanto, aqui em silêncio canto
Sobre a perseveresperança de tê-la de volta, por inteiro, nesse terço ou noutro de
existência, eu sei, o amor sobrevive e meio animado, meio triste, eu sigo, eu busco.
Reconquistar
Incessantemente
Numa cantoria já rouca
Toada à toa da tenteada louca
A vida que escorreu
Atabalhoada
Nos dedos entreabertos de um guitarrista enferrujado
Outrora, pra fora, entretanto, aqui em silêncio canto
Sobre a perseveresperança de tê-la de volta, por inteiro, nesse terço ou noutro de
existência, eu sei, o amor sobrevive e meio animado, meio triste, eu sigo, eu busco.
terça-feira, 15 de janeiro de 2019
A(mar)
No teu olhar-mel
- dono meu
o reflexo
complexo
do astro
rei
um rastro
eu dei
a mar
aberto
amar
de perto
na armação
das ondas
que vieram
na nossa direção
te peguei
nos braços
levantei
num abraço
salvei a
sereia
aos risos
e o teu pé
tu e tua fé
no piso
- o fundo
da areia
meu mundo
clareia
nessa hora
essa lembrança boa
nós dois à toa
te trago agora
aqui comigo
cabelos molhados
pele bronzeada
perfeito abrigo
construído
em tecido floral
naquele paraíso
o nosso litoral.
quinta-feira, 22 de novembro de 2018
Quilômetros
Eu ando e ando
em elipses
pagando a comanda
é um eclipse
mas não passa
a régua
e rechaça
a trégua
já não sei
se acelero
se espero...
Cascata abaixo
despenco
me esborracho
nas avencas
eu caio
chorando as memórias
visitando a história
de soslaio
eu rolo
como bola
na grama verde
em uma reide
entre setas
e insetos
inimigos
e sereno
eles vêm comigo
e o veneno
faz vergão n'alma
cumpre a missão
bate palma
faz furo
é pesado e duro
é campeche
se remexe
e sai fora da estrada
ou faz morada
então me volto
pra mim
e escolto
assim
todas as coisas boas
que longe voam.
As protejo
e daqui as vejo.
Eu tanto ando
tantos quilômetros
eu me lanço
é só pra ver
se outra vez
as alcanço.
em elipses
pagando a comanda
é um eclipse
mas não passa
a régua
e rechaça
a trégua
já não sei
se acelero
se espero...
Cascata abaixo
despenco
me esborracho
nas avencas
eu caio
chorando as memórias
visitando a história
de soslaio
eu rolo
como bola
na grama verde
em uma reide
entre setas
e insetos
inimigos
e sereno
eles vêm comigo
e o veneno
faz vergão n'alma
cumpre a missão
bate palma
faz furo
é pesado e duro
é campeche
se remexe
e sai fora da estrada
ou faz morada
então me volto
pra mim
e escolto
assim
todas as coisas boas
que longe voam.
As protejo
e daqui as vejo.
Eu tanto ando
tantos quilômetros
eu me lanço
é só pra ver
se outra vez
as alcanço.
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