Nosso novo quebra-cabeça
de infinitas peças
compramos juntos
aventura conjunta
em suaves prestações
com juros e correções
mas
compramos
acreditando na imagem
bonita paisagem
que um dia
ele há de formar.
Tento daqui
tu tenta daí
encaixa assim
desencaixa assado
desisto por hoje
e na caixa já guardo
teimosia pura
cabeças duras
boas intenções
sintonia nos corações
uma grade quebrada
no fogão espelhado
e na porta suada
um furo mal pensado
decepção ao perceber
a falta do saber
como lidar
com coisas simples
bagagem vazia
de conhecimentos
mais vazia que a minha
caixa de ferramentas.
Euforia nas emoções
turbilhão de sensações
tu tenta de lá
e de cá sou eu que tento
a sensibilidade que me falta
e a má administração de tempo
por vezes irrita
transborda
o martelinho
outrora cheio
de tequila
confesso
e peço
paciência no hoje
fé no amanhã
coragem no amor
um balde de cor
nova e escura
naquela parede crua-pura
vem e me diz
o que vai fazer com o giz?
E na outra, no costado,
dois ou três quadros
ou oito ou dez
um mês e pouco passado
e o que a gente fez?
Quando compramos
esse nosso novo jogo
o quebra-cabeça
de infinitas peças
sinceramente não pensei
que seria assim difícil
nesse tumultuado início
agora percebo
que na verdade
não veio com manual de instruções
ou aviso de oscilações
na dificuldade da montagem
ou da chuva
até a vaga de garagem
sem carro
sem barro
no calçamento simétrico
com espaços de grama
na fita métrica
pro meu novo pijama
azul
marinho
cheio de carinho
me arrancou sorrisos
tal qual aquele bicho
de guampa na testa
causou grande festa
na sacola escondido
em meio aos chocolates
famosos leitinhos
calorosos abraços
nessa noite que marcou
até agora
algumas cores pintadas
nesses dias complicados
em meio à árdua empreitada
que tem nos tirado
preciosos minutos
de cabeça tranquila
o que é imprescindível
para a construção
da imagem incrível
que vamos montar
peça por peça
pé por pé
mão com mão
na trajetória comprida
do jogo da nossa vida.
segunda-feira, 17 de julho de 2017
quinta-feira, 8 de junho de 2017
Palavras para a guria com quem eu fiquei no Beco (ou para a minha esposa amada)
Quando te vi
Chegando, dando oi
Sorridente e destemida
Olha...
Até atrevida!
Naquele Beco
Sem saída
Eu me encontrei:
Ou me apaixonava
Ou me apaixonava
Ou me apaixonava.
Logo percebi
A tua pinta
Caprichosamente desenhada
Tão bonita...
E quando o pônei pulou
Do porta-luvas
Ou quando o lêmure entrou
Pra nossa família,
Aos poucos eu fui descobrindo
Que pessoa incrível
Eu tinha ali
Ao meu lado
Encostada
Indo rumo ao tempo
Que voa, voa...
E voou tão rápido
E tão lindamente
Que fechamos os olhos
Num beijo demorado
Enquanto tocava a Florence
E, ao abrir,
Caímos aqui
Nesse 27 de maio
Daquele mesmo ano
Do qual falamos
Lá no início, lembra?
2017.
E assim, enfim
Os nossos dias de cão se acabaram.
Agora eu vou poder ter
Todo dia
Toda noite
Essa pele de boneca de porcelana
Esses olhos castanho-mel
Ou caramelo, não sei
Só sei que me encantam
Até hoje
Como naquela foto do coque.
Meu amor...
É com muita felicidade
E vontade
E fé no nosso amor
Que hoje eu posso
Estufar o peito e dizer
Que tu,
É a minha esposa amada.
quarta-feira, 12 de abril de 2017
Calles. Ratones. Vida.
Las calles lloran
lágrimas de sangre
arrancadas a puñaladas
del ojo grande del mundo
y la sangre escorre
en la vereda
con el agua de la lluvia
y se va por la boca
feroz de lobo
y allá debajo
llueve lluvia de sangre
en las cabezas de los ratones
desgraciados
causan miedo
y nojo
en los hombres
que más podridos,
no pueden ser
más ratones,
no pueden ser
desgraciados de los ratones
que son comparados con ese tipo imundo
que vive en el agoto
de las malas elecciones
que vive en la borbuja
del "yo" escroto
el hombre es cuchillo
el hombre es ratón
el hombre es lamentación
el hombre es tormenta
llegando tras un buen día
la sociedad,
el mundo,
son tierra arrasada
después que el hombre pasa
llevando todo por los aires
por los mares
bebiendo todas en los bares
vomitando y mandando
todo a los ratones
y sacando el cuchillo
aquél mismo
del inicio
del poema
de todo
del cambio del siglo
y yo ni hablo
de la "alvorada voraz"
y ni tampoco consigo
rimar eso
con "paz".
lágrimas de sangre
arrancadas a puñaladas
del ojo grande del mundo
y la sangre escorre
en la vereda
con el agua de la lluvia
y se va por la boca
feroz de lobo
y allá debajo
llueve lluvia de sangre
en las cabezas de los ratones
desgraciados
causan miedo
y nojo
en los hombres
que más podridos,
no pueden ser
más ratones,
no pueden ser
desgraciados de los ratones
que son comparados con ese tipo imundo
que vive en el agoto
de las malas elecciones
que vive en la borbuja
del "yo" escroto
el hombre es cuchillo
el hombre es ratón
el hombre es lamentación
el hombre es tormenta
llegando tras un buen día
la sociedad,
el mundo,
son tierra arrasada
después que el hombre pasa
llevando todo por los aires
por los mares
bebiendo todas en los bares
vomitando y mandando
todo a los ratones
y sacando el cuchillo
aquél mismo
del inicio
del poema
de todo
del cambio del siglo
y yo ni hablo
de la "alvorada voraz"
y ni tampoco consigo
rimar eso
con "paz".
segunda-feira, 26 de dezembro de 2016
Uma saudade
Das risadas minhas
e dos outros três
conversas aleatórias
futebol e outros clichês
derrotas e vitórias
o CD novo de alguma banda
daquelas que a gente ouvia
até gastar os ouvidos
pensando fazer algo
de bom e parecido
e então entrava
e puxava a porta
forrada por dentro
como as paredes todas
e assim que era
como uma caixa fechada
recheada de vida
vontades, sonhos e verdade.
Tudo ajeitado, plugado
regulado, conectado
com aquele momento à parte
do resto do mundo
desatava os nós (entre nós)
do dia a dia
da semana puxada
de tudo de ruim
naquelas seis cordas
cuidadosamente afinadas
que cantavam em sintonia
com as outras seis
precisas, certeiras
e mergulhava de cabeça
no mar barulhento
de pulos e ritmos
de tiques e manias
e lavava a alma
e até esquecia
de onde vinha a calma
gritava de toda guela
arranhava a garganta
vibrava com o nascimento
de novos sons
de guitarras dobradas
levadas
pelo baixo singelo
e sincero
e pela violência
da bateria
estampada em caretas
mil e duas facetas
e sorriam todos
era o nosso orgulho
em conjunto,
na empolgação
na vontade
no brilho dos olhos.
Naquelas duas horas
eu desligava a chave
do mundo lá fora
ia do agudo ao grave
gastava todo o resto
de energia,
de voz,
de fôlego,
suava a camiseta
desbotada e pequena
e subia e descia
os tons e as casas
e quando acabavam as forças
quando estava imerso
por completo
naquele universo
paralelo
acordava de novo
em acordes novos
de acordo com os outros
não era só música
era sentimento, era amizade.
Nisso tudo a saudade
se faz presente
e até me faz tocar
a guitarra imaginária
pelos corredores da vida
e marcar o bumbo
no assoalho do ônibus
e cantar
o tempo todo
e imaginar
a primeira e a segunda voz
e desse modo eu guardo
a lembrança daquele tempo
com todo o carinho e cuidado
que podem existir
como a guitarra preta
quase nova, brilhosa
que fica protegida
no Hard Case marrom
lindo, robusto
revestido de couro
que hoje ornamenta
com classe,
o canto do meu quarto.
terça-feira, 20 de dezembro de 2016
Um certo romance / uma pausa no tempo
Fazendo do meu colo travesseiro
as mãos juntas sob o rosto
as pernas atiradas no sofá
a paz nos olhos fechados
o descanso na boca entreaberta
tu repousa, linda
Pra mim, uma pausa no tempo
Um certo romance na TV
a música reverberando
pelos cantos da sala
batendo com força
nos meus pensamentos
que vão muito além
desse momento
vão longe
vão onde
as fotos passam
nas luzes apagadas
nos fogos subindo
na gente passando
no lusco-fusco cheio
de risos e choros
na felicidade plena
do teu olhar, morena
da minha barba sorrindo
de todos abrindo
pra nós dois um caminho
que leva direto pro abraço
pro colo de onde viemos
e praquilo que amanhã seremos
e eu rio sozinho
voltando pra cá
e ainda te acarinho
passando de leve
os dedos nos teus cabelos
e na tua orelha
e tomo um gole
da cerveja
que nem tá mais tão gelada
mas eu nem ligo
eu não preciso de mais nada
te tenho aqui comigo
e então tu te mexe
te ajeita melhor
e segue dormindo
talvez sonhando
o mesmo sonho
pra onde eu voei há pouco
talvez só descansando
o teu descanso merecido
enquanto eu contemplo
o espetáculo natural
que a vida me proporciona
a cada vez em que eu
paro tudo
dou uma pausa
no tempo
no mundo
e fico ali
só te olhando
e gostando de te ver dormir
que nem criança, com a boca aberta.
as mãos juntas sob o rosto
as pernas atiradas no sofá
a paz nos olhos fechados
o descanso na boca entreaberta
tu repousa, linda
Pra mim, uma pausa no tempo
Um certo romance na TV
a música reverberando
pelos cantos da sala
batendo com força
nos meus pensamentos
que vão muito além
desse momento
vão longe
vão onde
as fotos passam
nas luzes apagadas
nos fogos subindo
na gente passando
no lusco-fusco cheio
de risos e choros
na felicidade plena
do teu olhar, morena
da minha barba sorrindo
de todos abrindo
pra nós dois um caminho
que leva direto pro abraço
pro colo de onde viemos
e praquilo que amanhã seremos
e eu rio sozinho
voltando pra cá
e ainda te acarinho
passando de leve
os dedos nos teus cabelos
e na tua orelha
e tomo um gole
da cerveja
que nem tá mais tão gelada
mas eu nem ligo
eu não preciso de mais nada
te tenho aqui comigo
e então tu te mexe
te ajeita melhor
e segue dormindo
talvez sonhando
o mesmo sonho
pra onde eu voei há pouco
talvez só descansando
o teu descanso merecido
enquanto eu contemplo
o espetáculo natural
que a vida me proporciona
a cada vez em que eu
paro tudo
dou uma pausa
no tempo
no mundo
e fico ali
só te olhando
e gostando de te ver dormir
que nem criança, com a boca aberta.
terça-feira, 6 de dezembro de 2016
Verde
Sinal verde. Já podia ir em frente, podia atravessar a
esquina. Era noite. Era noite como em todas as outras noites, e era escuro e
tudo, mas não me repito, porque aquela noite era diferente. E não para mim, mas
para todos. Ao atravessar a esquina, segui meu caminho rotineiro, mas pela
primeira vez eu percebi coisas que jamais antes tinham tomado a minha atenção.
Tudo era verde, não só o sinal. Fachadas e letreiros, tantos; lojas e clínicas,
verduras e frutas na feira noturna; a fileira de luzes que as sinaleiras
formavam rua afora, que ao longe compunham quase um risco verde e aceso,
brilhante. Um risco verde no céu da noite. O verde da esperança. Cheguei a me
perguntar se o verde era a cor predominante nos estabelecimentos daquela
avenida larga e tão sem cor, ou se era só a minha percepção que estava tão
direcionada, mas segui, no piloto automático, sem calcular meu próprio
combustível, pensando em tudo, pensando na vida, na sua fragilidade e na sua brevidade. O corpo seguia, mas a cabeça
voava para a Colômbia, longe, triste, com escala em Chapecó. Eu que de certa forma
respiro o futebol, dos gramados verdes, naquele momento respirava o vazio, que
estava amarrado no nó da garganta, mas que não me deixava parar – minhas pernas
seguiam, vestindo aquela calça verde surrada, que uso umas duas vezes na
semana. O que passava na minha cabeça era que havia mais ou menos vinte e
quatro horas, um outro risco verde no céu da noite entristecia o mundo. Aquela
enorme ave de metal riscava o céu colombiano e em uma trágica descida se
chocava contra o verde nativo, a mata fechada, sob o choro agressivo das nuvens
negras, abreviando o sonho e a verde esperança de muitas vidas. E eu nem
conhecia essas vidas de perto, mas acompanhava muitas delas de longe, torcia,
xingava, comemorava, como se fossem todas minhas amigas próximas. Aquilo me
destruiu. Tudo se destruiu. As vidas, as famílias, a mata, o avião, os
apaixonados por futebol, e todos os seres humanos que têm algum amor no coração.
Doía pensar em tudo, ver as imagens daquele buraco no verde escuro, destroços e
malas, uniformes e acessórios verdes espalhados por todo o lado. Eu segui meu
caminho, mas em determinado momento, todo esse aperto no peito – que agora
volta enquanto despejo tudo nessas linhas – subiu até o meu próprio céu e então
rolou olhos afora, num desabafo em colo virtual, desesperado e ligeiro. Cheguei em casa uma hora
depois, como em todas as noites; a minha viagem saiu como o esperado, minha
família me recebeu em casa, minha vida não foi interrompida violentamente pelo
destino. Tive a sorte que muitos não tiveram. Mas continuo pensando,
diariamente, que na noite anterior àquela minha caminhada noturna, o verde de
setenta e uma esperanças desbotou para sempre.
sexta-feira, 25 de novembro de 2016
Mais cinco minutos
- Tem que pagá pra entrá ali, meu?
- Quê?
- Tem que pagá pra entrá ali?
- Bah, tem que vê, meu, vamo ali...
Passaram por mim. Que susto. A verdade é que cada noite é uma aventura, e aquela parecia diferente, ao mesmo tempo em que parecia outra noite igual a todas. Os dois caras passaram, num caminhar ligeiro, um mexendo no celular, distraído, e o outro olhando em volta, parecendo agoniado. Talvez ele só estivesse com pressa pra entrar naquela caverna obscura, tomar uma cerveja barata e aguada, quem sabe dar uns beijos, dançar, não sei - vai saber o que se passa lá dentro. Não sei, porque também talvez estivessem querendo uma pedra, e tivessem facas nas cinturas, e sangue nos olhos, de repente até na pressa de ir ao encontro de alguém, uma carta marcada no baralho daquele breu. Ou pior, talvez estivessem forjando um assunto dissimulado para ali mesmo, naquele mini diálogo, ao passarmos, os três, por trás da banca de revistas fechada - era por volta das 22h30, mais ou menos -, partirem pra cima de mim, facas em punho, me ameaçando, e eu tentando resistir, e eles insistindo, e culminando numa tragédia, eu com a barriga rasgada a facadas, o sangue espalhado, as lágrimas rolando, e eles levando todos os meus pertences, e meus pais estranhando logo depois, às 23h40, quando eu não estivesse chegando em casa. Acontece que eu não sei, nem tentei saber, porque apertei o passo, e como que deixando cascas de banana na ultrapassagem, ganhei os metros à frente a passadas largas, deixando então aquele papo furado sumir aos poucos às minhas costas. Ali na frente, aquelas mesmas lancherias de sempre, com as mesmas (ou outras) pessoas mal encaradas perguntando o preço de qualquer coisa e olhando em volta, para mim, para a menina que ia logo à frente, sozinha, para o velho de boné atrás do balcão, para os carros que passavam à toda na Júlio... Talvez estivessem comprando um lanche, afinal. Ou talvez estivessem analisando a situação para atacar alguém. Eu não sei. No fim, mais uma vez não deu em nada.
- Quê?
- Tem que pagá pra entrá ali?
- Bah, tem que vê, meu, vamo ali...
Passaram por mim. Que susto. A verdade é que cada noite é uma aventura, e aquela parecia diferente, ao mesmo tempo em que parecia outra noite igual a todas. Os dois caras passaram, num caminhar ligeiro, um mexendo no celular, distraído, e o outro olhando em volta, parecendo agoniado. Talvez ele só estivesse com pressa pra entrar naquela caverna obscura, tomar uma cerveja barata e aguada, quem sabe dar uns beijos, dançar, não sei - vai saber o que se passa lá dentro. Não sei, porque também talvez estivessem querendo uma pedra, e tivessem facas nas cinturas, e sangue nos olhos, de repente até na pressa de ir ao encontro de alguém, uma carta marcada no baralho daquele breu. Ou pior, talvez estivessem forjando um assunto dissimulado para ali mesmo, naquele mini diálogo, ao passarmos, os três, por trás da banca de revistas fechada - era por volta das 22h30, mais ou menos -, partirem pra cima de mim, facas em punho, me ameaçando, e eu tentando resistir, e eles insistindo, e culminando numa tragédia, eu com a barriga rasgada a facadas, o sangue espalhado, as lágrimas rolando, e eles levando todos os meus pertences, e meus pais estranhando logo depois, às 23h40, quando eu não estivesse chegando em casa. Acontece que eu não sei, nem tentei saber, porque apertei o passo, e como que deixando cascas de banana na ultrapassagem, ganhei os metros à frente a passadas largas, deixando então aquele papo furado sumir aos poucos às minhas costas. Ali na frente, aquelas mesmas lancherias de sempre, com as mesmas (ou outras) pessoas mal encaradas perguntando o preço de qualquer coisa e olhando em volta, para mim, para a menina que ia logo à frente, sozinha, para o velho de boné atrás do balcão, para os carros que passavam à toda na Júlio... Talvez estivessem comprando um lanche, afinal. Ou talvez estivessem analisando a situação para atacar alguém. Eu não sei. No fim, mais uma vez não deu em nada.
O percurso é o mesmo de sempre, o vento na esquina é o mesmo de sempre, e também a sensação que carrego é a mesma de sempre: medo de tudo, nojo do cheiro e do aspecto de tudo, raiva em planos de desferir socos, talvez uma rasteira, a qualquer um que por ventura tente me atacar, mas nem sei como seria, se bateria e fugiria, ou se seria uma peleia violenta de filme, ou se somente apanharia e choraria de raiva em seguida. Tudo isso vai balançando ali dentro da minha cabeça, e balança rapidamente, no ritmo da caminhada, e das três ou dezoito trilhas sonoras que ouço enquanto passo pelas cavernas fedorentas. A trilha muda mais ou menos a cada trinta e três passos, eu acho. Eu acho, na verdade, é que preciso contar melhor, porque talvez sejam somente quinze passos o que separa uma música da outra, e elas saem de dentro das portas abertas, aquelas que têm ao lado um bruto segurança, fumando ou conversando, ou rindo, ou ameaçando alguém. Num cenário ideal, seriam brutos bailarinos, e eu passaria cantando, tranquilo. Mas o cenário não é o ideal, e disso eu já sei faz tempo. E quanto aos passos, vou contar melhor e guardar para uma próxima vez. Provavelmente haverá uma próxima vez, porque essa caminhada noturna parece uma fonte inesgotável de causos possíveis que vou criando na imaginação, enquanto olho em volta e sinto a brisa na cara. Agora faz calor e a brisa não me corta mais, só dá uma agradável refrescada, o que é bom. Mas aquelas pedras soltas na calçada me incomodam demais, porque os funcionários das espeluncas lavam tudo ao fim do dia, e aquela água nojenta, com espuma, gordura, mijo, farelo, azeite e tantas coisas possíveis de se haver ali escorre pra baixo das pedras. Então além de cuidar do que acontece à minha volta, eu tenho de cuidar em que pedra piso, porque não raro é uma solta, que cospe com violência aquela solução dos infernos para cima, o que pode atingir meus pés (é claro que já aconteceu). É adrenalina correndo nas veias, e pensamentos mil, às vezes o Grêmio no fone de ouvido, às vezes a resenha mental do que foi o dia, às vezes o planejamento do sábado que vem, às vezes só a vontade de sentar no banco do ônibus e continuar lendo a pesada história de Raskólhnikov, ou até, às vezes, é só o medo de tudo misturado com a vontade de chegar em casa, ver meus pais e dar sequência a tudo que a vida tem a oferecer logo ali na frente, na próxima quadra.
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