segunda-feira, 17 de julho de 2017

Quebra-cabeça

Nosso novo quebra-cabeça
de infinitas peças 
compramos juntos 
aventura conjunta
em suaves prestações 
com juros e correções 
mas 
compramos 
acreditando na imagem 
bonita paisagem 
que um dia 
ele há de formar.
Tento daqui 
tu tenta daí 
encaixa assim 
desencaixa assado 
desisto por hoje 
e na caixa já guardo  
teimosia pura 
cabeças duras 
boas intenções 
sintonia nos corações 
uma grade quebrada 
no fogão espelhado 
e na porta suada 
um furo mal pensado 
decepção ao perceber 
a falta do saber 
como lidar
com coisas simples 
bagagem vazia 
de conhecimentos  
mais vazia que a minha 
caixa de ferramentas.
Euforia nas emoções 
turbilhão de sensações 
tu tenta de lá 
e de cá sou eu que tento 
a sensibilidade que me falta 
e a má administração de tempo 
por vezes irrita 
transborda 
o martelinho 
outrora cheio 
de tequila 
confesso 
e peço 
paciência no hoje 
fé no amanhã 
coragem no amor 
um balde de cor 
nova e escura
naquela parede crua-pura 
vem e me diz 
o que vai fazer com o giz? 
E na outra, no costado, 
dois ou três quadros 
ou oito ou dez 
um mês e pouco passado 
e o que a gente fez? 
Quando compramos 
esse nosso novo jogo 
o quebra-cabeça 
de infinitas peças 
sinceramente não pensei 
que seria assim difícil 
nesse tumultuado início 
agora percebo 
que na verdade 
não veio com manual de instruções 
ou aviso de oscilações 
na dificuldade da montagem 
ou da chuva 
até a vaga de garagem 
sem carro 
sem barro 
no calçamento simétrico 
com espaços de grama 
na fita métrica  
pro meu novo pijama 
azul 
marinho 
cheio de carinho 
me arrancou sorrisos 
tal qual aquele bicho 
de guampa na testa 
causou grande festa 
na sacola escondido 
em meio aos chocolates 
famosos leitinhos 
calorosos abraços 
nessa noite que marcou
até agora 
algumas cores pintadas 
nesses dias complicados 
em meio à árdua empreitada 
que tem nos tirado 
preciosos minutos 
de cabeça tranquila 
o que é imprescindível 
para a construção
da imagem incrível 
que vamos montar 
peça por peça 
pé por pé 
mão com mão 
na trajetória comprida 
do jogo da nossa vida.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Palavras para a guria com quem eu fiquei no Beco (ou para a minha esposa amada)

Quando te vi 
Chegando, dando oi 
Sorridente e destemida 
Olha... 
Até atrevida! 
Naquele Beco 
Sem saída 
Eu me encontrei:
Ou me apaixonava 
Ou me apaixonava. 
Logo percebi 
A tua pinta 
Caprichosamente desenhada 
Tão bonita... 
E quando o pônei pulou 
Do porta-luvas 
Ou quando o lêmure entrou 
Pra nossa família, 
Aos poucos eu fui descobrindo 
Que pessoa incrível 
Eu tinha ali 
Ao meu lado 
Encostada 
Indo rumo ao tempo 
Que voa, voa... 
E voou tão rápido 
E tão lindamente 
Que fechamos os olhos 
Num beijo demorado 
Enquanto tocava a Florence 
E, ao abrir, 
Caímos aqui 
Nesse 27 de maio 
Daquele mesmo ano 
Do qual falamos 
Lá no início, lembra? 
2017. 
E assim, enfim 
Os nossos dias de cão se acabaram. 
Agora eu vou poder ter 
Todo dia 
Toda noite 
Essa pele de boneca de porcelana 
Esses olhos castanho-mel 
Ou caramelo, não sei 
Só sei que me encantam 
Até hoje 
Como naquela foto do coque. 
Meu amor... 
É com muita felicidade 
E vontade 
E fé no nosso amor 
Que hoje eu posso 
Estufar o peito e dizer 
Que tu, 
É a minha esposa amada.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Calles. Ratones. Vida.

Las calles lloran 
lágrimas de sangre 
arrancadas a puñaladas 
del ojo grande del mundo 
y la sangre escorre 
en la vereda 
con el agua de la lluvia 
y se va por la boca 
feroz de lobo 
y allá debajo 
llueve lluvia de sangre 
en las cabezas de los ratones 
desgraciados 
causan miedo 
y nojo 
en los hombres 
que más podridos, 
no pueden ser 
más ratones, 
no pueden ser 
desgraciados de los ratones 
que son comparados con ese tipo imundo 
que vive en el agoto 
de las malas elecciones 
que vive en la borbuja
del "yo" escroto 
el hombre es cuchillo 
el hombre es ratón 
el hombre es lamentación 
el hombre es tormenta 
llegando tras un buen día 
la sociedad, 
el mundo, 
son tierra arrasada 
después que el hombre pasa 
llevando todo por los aires 
por los mares
bebiendo todas en los bares 
vomitando y mandando 
todo a los ratones 
y sacando el cuchillo 
aquél mismo 
del inicio 
del poema 
de todo 
del cambio del siglo 
y yo ni hablo 
de la "alvorada voraz" 
y ni tampoco consigo 
rimar eso 
con "paz".

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Uma saudade



Das risadas minhas 
e dos outros três 
conversas aleatórias 
futebol e outros clichês
derrotas e vitórias 
o CD novo de alguma banda 
daquelas que a gente ouvia 
até gastar os ouvidos 
pensando fazer algo 
de bom e parecido 
e então entrava 
e puxava a porta 
forrada por dentro 
como as paredes todas 
e assim que era
como uma caixa fechada 
recheada de vida 
vontades, sonhos e verdade.

Tudo ajeitado, plugado 
regulado, conectado 
com aquele momento à parte 
do resto do mundo
desatava os nós (entre nós) 
do dia a dia 
da semana puxada 
de tudo de ruim
naquelas seis cordas 
cuidadosamente afinadas 
que cantavam em sintonia 
com as outras seis 
precisas, certeiras 
e mergulhava de cabeça 
no mar barulhento
de pulos e ritmos
de tiques e manias 
e lavava a alma 
e até esquecia 
de onde vinha a calma
gritava de toda guela 
arranhava a garganta 
vibrava com o nascimento
de novos sons 
de guitarras dobradas 
levadas 
pelo baixo singelo 
e sincero 
e pela violência 
da bateria 
estampada em caretas 
mil e duas facetas
e sorriam todos 
era o nosso orgulho 
em conjunto, 
na empolgação  
na vontade 
no brilho dos olhos.

Naquelas duas horas 
eu desligava a chave
do mundo lá fora 
ia do agudo ao grave 
gastava todo o resto 
de energia, 
de voz, 
de fôlego, 
suava a camiseta 
desbotada e pequena 
e subia e descia 
os tons e as casas 
e quando acabavam as forças 
quando estava imerso 
por completo 
naquele universo 
paralelo 
acordava de novo 
em acordes novos 
de acordo com os outros 
não era só música 
era sentimento, era amizade. 

Nisso tudo a saudade 
se faz presente 
e até me faz tocar 
a guitarra imaginária 
pelos corredores da vida 
e marcar o bumbo 
no assoalho do ônibus 
e cantar 
o tempo todo 
e imaginar 
a primeira e a segunda voz 
e desse modo eu guardo
a lembrança daquele tempo 
com todo o carinho e cuidado
que podem existir 
como a guitarra preta 
quase nova, brilhosa 
que fica protegida 
no Hard Case marrom 
lindo, robusto
revestido de couro 
que hoje ornamenta 
com classe, 
o canto do meu quarto.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Um certo romance / uma pausa no tempo

Fazendo do meu colo travesseiro
as mãos juntas sob o rosto
as pernas atiradas no sofá
a paz nos olhos fechados
o descanso na boca entreaberta
tu repousa, linda
Pra mim, uma pausa no tempo
Um certo romance na TV
a música reverberando
pelos cantos da sala
batendo com força
nos meus pensamentos
que vão muito além
desse momento
vão longe
vão onde
as fotos passam
nas luzes apagadas
nos fogos subindo
na gente passando
no lusco-fusco cheio
de risos e choros
na felicidade plena
do teu olhar, morena
da minha barba sorrindo 

de todos abrindo
pra nós dois um caminho
que leva direto pro abraço
pro colo de onde viemos
e praquilo que amanhã seremos
e eu rio sozinho
voltando pra cá
e ainda te acarinho
passando de leve
os dedos nos teus cabelos
e na tua orelha
e tomo um gole
da cerveja
que nem tá mais tão gelada
mas eu nem ligo
eu não preciso de mais nada
te tenho aqui comigo
e então tu te mexe
te ajeita melhor
e segue dormindo
talvez sonhando
o mesmo sonho
pra onde eu voei há pouco
talvez só descansando
o teu descanso merecido
enquanto eu contemplo
o espetáculo natural
que a vida me proporciona
a cada vez em que eu
paro tudo
dou uma pausa
no tempo
no mundo
e fico ali
só te olhando
e gostando de te ver dormir
que nem criança, com a boca aberta.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Verde

Sinal verde. Já podia ir em frente, podia atravessar a esquina. Era noite. Era noite como em todas as outras noites, e era escuro e tudo, mas não me repito, porque aquela noite era diferente. E não para mim, mas para todos. Ao atravessar a esquina, segui meu caminho rotineiro, mas pela primeira vez eu percebi coisas que jamais antes tinham tomado a minha atenção. Tudo era verde, não só o sinal. Fachadas e letreiros, tantos; lojas e clínicas, verduras e frutas na feira noturna; a fileira de luzes que as sinaleiras formavam rua afora, que ao longe compunham quase um risco verde e aceso, brilhante. Um risco verde no céu da noite. O verde da esperança. Cheguei a me perguntar se o verde era a cor predominante nos estabelecimentos daquela avenida larga e tão sem cor, ou se era só a minha percepção que estava tão direcionada, mas segui, no piloto automático, sem calcular meu próprio combustível, pensando em tudo, pensando na vida, na sua fragilidade e na sua brevidade. O corpo seguia, mas a cabeça voava para a Colômbia, longe, triste, com escala em Chapecó. Eu que de certa forma respiro o futebol, dos gramados verdes, naquele momento respirava o vazio, que estava amarrado no nó da garganta, mas que não me deixava parar – minhas pernas seguiam, vestindo aquela calça verde surrada, que uso umas duas vezes na semana. O que passava na minha cabeça era que havia mais ou menos vinte e quatro horas, um outro risco verde no céu da noite entristecia o mundo. Aquela enorme ave de metal riscava o céu colombiano e em uma trágica descida se chocava contra o verde nativo, a mata fechada, sob o choro agressivo das nuvens negras, abreviando o sonho e a verde esperança de muitas vidas. E eu nem conhecia essas vidas de perto, mas acompanhava muitas delas de longe, torcia, xingava, comemorava, como se fossem todas minhas amigas próximas. Aquilo me destruiu. Tudo se destruiu. As vidas, as famílias, a mata, o avião, os apaixonados por futebol, e todos os seres humanos que têm algum amor no coração. Doía pensar em tudo, ver as imagens daquele buraco no verde escuro, destroços e malas, uniformes e acessórios verdes espalhados por todo o lado. Eu segui meu caminho, mas em determinado momento, todo esse aperto no peito – que agora volta enquanto despejo tudo nessas linhas – subiu até o meu próprio céu e então rolou olhos afora, num desabafo em colo virtual, desesperado e ligeiro. Cheguei em casa uma hora depois, como em todas as noites; a minha viagem saiu como o esperado, minha família me recebeu em casa, minha vida não foi interrompida violentamente pelo destino. Tive a sorte que muitos não tiveram. Mas continuo pensando, diariamente, que na noite anterior àquela minha caminhada noturna, o verde de setenta e uma esperanças desbotou para sempre. 

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Mais cinco minutos

- Tem que pagá pra entrá ali, meu?
- Quê?
- Tem que pagá pra entrá ali?
- Bah, tem que vê, meu, vamo ali...

Passaram por mim. Que susto. A verdade é que cada noite é uma aventura, e aquela parecia diferente, ao mesmo tempo em que parecia outra noite igual a todas. Os dois caras passaram, num caminhar ligeiro, um mexendo no celular, distraído, e o outro olhando em volta, parecendo agoniado. Talvez ele só estivesse com pressa pra entrar naquela caverna obscura, tomar uma cerveja barata e aguada, quem sabe dar uns beijos, dançar, não sei - vai saber o que se passa lá dentro. Não sei, porque também talvez estivessem querendo uma pedra, e tivessem facas nas cinturas, e sangue nos olhos, de repente até na pressa de ir ao encontro de alguém, uma carta marcada no baralho daquele breu. Ou pior, talvez estivessem forjando um assunto dissimulado para ali mesmo, naquele mini diálogo, ao passarmos, os três, por trás da banca de revistas fechada - era por volta das 22h30, mais ou menos -, partirem pra cima de mim, facas em punho, me ameaçando, e eu tentando resistir, e eles insistindo, e culminando numa tragédia, eu com a barriga rasgada a facadas, o sangue espalhado, as lágrimas rolando, e eles levando todos os meus pertences, e meus pais estranhando logo depois, às 23h40, quando eu não estivesse chegando em casa. Acontece que eu não sei, nem tentei saber, porque apertei o passo, e como que deixando cascas de banana na ultrapassagem, ganhei os metros à frente a passadas largas, deixando então aquele papo furado sumir aos poucos às minhas costas. Ali na frente, aquelas mesmas lancherias de sempre, com as mesmas (ou outras) pessoas mal encaradas perguntando o preço de qualquer coisa e olhando em volta, para mim, para a menina que ia logo à frente, sozinha, para o velho de boné atrás do balcão, para os carros que passavam à toda na Júlio... Talvez estivessem comprando um lanche, afinal. Ou talvez estivessem analisando a situação para atacar alguém. Eu não sei. No fim, mais uma vez não deu em nada.

O percurso é o mesmo de sempre, o vento na esquina é o mesmo de sempre, e também a sensação que carrego é a mesma de sempre: medo de tudo, nojo do cheiro e do aspecto de tudo, raiva em planos de desferir socos, talvez uma rasteira, a qualquer um que por ventura tente me atacar, mas nem sei como seria, se bateria e fugiria, ou se seria uma peleia violenta de filme, ou se somente apanharia e choraria de raiva em seguida. Tudo isso vai balançando ali dentro da minha cabeça, e balança rapidamente, no ritmo da caminhada, e das três ou dezoito trilhas sonoras que ouço enquanto passo pelas cavernas fedorentas. A trilha muda mais ou menos a cada trinta e três passos, eu acho. Eu acho, na verdade, é que preciso contar melhor, porque talvez sejam somente quinze passos o que separa uma música da outra, e elas saem de dentro das portas abertas, aquelas que têm ao lado um bruto segurança, fumando ou conversando, ou rindo, ou ameaçando alguém. Num cenário ideal, seriam brutos bailarinos, e eu passaria cantando, tranquilo. Mas o cenário não é o ideal, e disso eu já sei faz tempo. E quanto aos passos, vou contar melhor e guardar para uma próxima vez. Provavelmente haverá uma próxima vez, porque essa caminhada noturna parece uma fonte inesgotável de causos possíveis que vou criando na imaginação, enquanto olho em volta e sinto a brisa na cara. Agora faz calor e a brisa não me corta mais, só dá uma agradável refrescada, o que é bom. Mas aquelas pedras soltas na calçada me incomodam demais, porque os funcionários das espeluncas lavam tudo ao fim do dia, e aquela água nojenta, com espuma, gordura, mijo, farelo, azeite e tantas coisas possíveis de se haver ali escorre pra baixo das pedras. Então além de cuidar do que acontece à minha volta, eu tenho de cuidar em que pedra piso, porque não raro é uma solta, que cospe com violência aquela solução dos infernos para cima, o que pode atingir meus pés (é claro que já aconteceu). É adrenalina correndo nas veias, e pensamentos mil, às vezes o Grêmio no fone de ouvido, às vezes a resenha mental do que foi o dia, às vezes o planejamento do sábado que vem, às vezes só a vontade de sentar no banco do ônibus e continuar lendo a pesada história de Raskólhnikov, ou até, às vezes, é só o medo de tudo misturado com a vontade de chegar em casa, ver meus pais e dar sequência a tudo que a vida tem a oferecer logo ali na frente, na próxima quadra.