terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Verde

Sinal verde. Já podia ir em frente, podia atravessar a esquina. Era noite. Era noite como em todas as outras noites, e era escuro e tudo, mas não me repito, porque aquela noite era diferente. E não para mim, mas para todos. Ao atravessar a esquina, segui meu caminho rotineiro, mas pela primeira vez eu percebi coisas que jamais antes tinham tomado a minha atenção. Tudo era verde, não só o sinal. Fachadas e letreiros, tantos; lojas e clínicas, verduras e frutas na feira noturna; a fileira de luzes que as sinaleiras formavam rua afora, que ao longe compunham quase um risco verde e aceso, brilhante. Um risco verde no céu da noite. O verde da esperança. Cheguei a me perguntar se o verde era a cor predominante nos estabelecimentos daquela avenida larga e tão sem cor, ou se era só a minha percepção que estava tão direcionada, mas segui, no piloto automático, sem calcular meu próprio combustível, pensando em tudo, pensando na vida, na sua fragilidade e na sua brevidade. O corpo seguia, mas a cabeça voava para a Colômbia, longe, triste, com escala em Chapecó. Eu que de certa forma respiro o futebol, dos gramados verdes, naquele momento respirava o vazio, que estava amarrado no nó da garganta, mas que não me deixava parar – minhas pernas seguiam, vestindo aquela calça verde surrada, que uso umas duas vezes na semana. O que passava na minha cabeça era que havia mais ou menos vinte e quatro horas, um outro risco verde no céu da noite entristecia o mundo. Aquela enorme ave de metal riscava o céu colombiano e em uma trágica descida se chocava contra o verde nativo, a mata fechada, sob o choro agressivo das nuvens negras, abreviando o sonho e a verde esperança de muitas vidas. E eu nem conhecia essas vidas de perto, mas acompanhava muitas delas de longe, torcia, xingava, comemorava, como se fossem todas minhas amigas próximas. Aquilo me destruiu. Tudo se destruiu. As vidas, as famílias, a mata, o avião, os apaixonados por futebol, e todos os seres humanos que têm algum amor no coração. Doía pensar em tudo, ver as imagens daquele buraco no verde escuro, destroços e malas, uniformes e acessórios verdes espalhados por todo o lado. Eu segui meu caminho, mas em determinado momento, todo esse aperto no peito – que agora volta enquanto despejo tudo nessas linhas – subiu até o meu próprio céu e então rolou olhos afora, num desabafo em colo virtual, desesperado e ligeiro. Cheguei em casa uma hora depois, como em todas as noites; a minha viagem saiu como o esperado, minha família me recebeu em casa, minha vida não foi interrompida violentamente pelo destino. Tive a sorte que muitos não tiveram. Mas continuo pensando, diariamente, que na noite anterior àquela minha caminhada noturna, o verde de setenta e uma esperanças desbotou para sempre. 

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