Ontem à noite já deixei tudo certo, ela estaria ali, me esperando, como de praxe, quando eu acordasse. O sono foi curto, normal. Então acordei, o dia começou. Quando fui recobrando os sentidos, a visão se formando aos poucos, dei aquela espiada e sim, ali estava ela. Clara, serena, suave, me sorrindo.
Cabe aqui uma breve descrição.
Ela me foi apresentada, há anos, por alguém muito especial e foi amor à primeira vista, já saímos juntos. Me acompanhou, desde então, em muitos momentos, corriqueiros ou não, especiais ou não... Momentos bons e momentos ruins. É claro que, tudo muda com o tempo, e com ela, não seria diferente. Ela foi ganhando traços mais cansados, envelhecidos, a idade não passa em vão e o tempo, é implacável. Na verdade, pra mim foi ótimo, porque eu fui achando que ela ficava cada vez mais charmosa e gostosa. Cada vez eu gostava mais dela. Enfim, o tempo trouxe algo a mais entre nós. Fomos nos acertando cada vez mais, a coisa se ajeita, sabe como é, tudo passa a fluir mais naturalmente... Os anos nos fizeram bem, no geral; criou-se uma coisa boa, uma certa simbiose.
Voltando ao acontecido, hoje de manhã, assim que eu a vi ali, bonita, sorrindo, a minha mãe entrou em cena e deu um basta à nossa história. "Ah, não! Tu não vai sair com ela hoje! Até vou te dizer: tu não vai sair com ela nunca mais!"
Eu não quis aceitar de início, claro. E muito menos gostei da abordagem! Sempre fui convencido de que ela foi feita para estar ali comigo. Minha mãe, então, mais delicadamente, foi dizendo, explicando, que mesmo que fosse tudo tão bom, mesmo que nos encaixássemos perfeitamente, mesmo que fôssemos bonitos juntos e que ela me fizesse sentir tão bem, tão à vontade, mesmo que fôssemos praticamente uma coisa só (ainda que velha e desbotada), a realidade mostrava que era a hora, que aquilo ali era uma despedida.
Pulei da cama. Fui na direção dela, resolvi tentar enxergar o seu lado... Fitei-a por instantes e percebi que todo aquele charme envelhecido que eu sempre gostei, na verdade era feito de sinais, sinais acumulados de que não dava mais. Ela não podia mais continuar. A essa altura ela já estava se desmanchando. Então, finalmente aceitei: era o fim.
Com todo cuidado, a toquei. Estava fraca, bem fininha... Peguei-a, olhei para a minha mãe e disse: "toma, leva ela daqui, então". E lá se foram elas, porta afora.
Sentei na cama e em seguida minha mãe passou pelo quarto, na direção da cozinha. Gritei: "que merda, mãe; eu gostava daquela calça velha!".
Como desapegar-se dela, que passa tanto tempo com a gente, diariamente em nosso corpo, nos acompanhando em tantos lugares? E que nem se importa quando a pegamos de manhã cedo ou quando a deixamos de lado, desbotada, envelhecida, mas sempre tão simbólica e de tão surrada ainda se faz tão útil pra nós. Grande texto do querido amigo! Um forte abraço, chimba.
ResponderExcluirE quem não tem uma companheira dessas, né?
ResponderExcluirCara, esse texto ficou pela metade nos rascunhos por muito tempo. Até que semana passada eu o retomei e terminei. :)
Valeu, abraço!