quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Ela(s)

Ela te chama
e finge que te ama
na verdade nada
é mesmo descarada
lembra que tu existe
fala no diminutivo
pergunta como tá
dá o despiste
e antes de responder
já pede um favor
e se tu não pode
já se perde o amor
é uma querida
idealizou uma vida
vou entrar na onda
dos diminutivos dela
idealizou a vidinha
e faz de tudo pra tê-la
ou só a metade
pois a outra pede
pra miga fazer
ela não tem idade
pra ser o que é
ou o que quer ser
ela não sabe nada
do mundo
da vida
do que veio depois
dos tempos da mãe
e essa é outra
um nojo de gente
tal qual serpente
ataca e mente
mas se acha a tal
e deu presentinho
todo bonitinho
com dedicatória
mas não agora
pois já não gosta
hoje aposta
na decoreba sintática
e na cara deslavada
"simpática"
e desabafa no querido diário
aberto a todos
menos a quem tentou
fazer de otária
só que esta, é amada
por tantos
e é tão boa
que não se abala
está cercada de amor
que ela mesma plantou
fantasiada de joaninha
ou desconstruindo
os paradigma tudo
e amando
os bichinhos
e a todos
os que merecem
e os que não
e eu, ao natural
como a vida quer
e costuma me levar
esqueci que falava
do mal
pra deixar meu amor
falar do bem.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Cinco anos

Quando apertei o start
Surpreendi no pedido
À moda antiga
Em um fim de tarde
Larguei o controle
No sofá ao lado
Perdi o controle
Bem apaixonado
Das festas no beco
Ao dia de hoje
Planejando ainda
Te dar meu sobrenome
Do batom no bolso
Ao batom espalhado
No meu bigode
Nem sei se pode
Falar tanto assim
Mas faz parte de mim
Te amar e sim
Contar os meses
Brigar às vezes
Contar os dias
Pra te ver fazendo
A voz de nenê
Ou me dar um beijo
Desses de tremer
Nas bases
Desses que, sabe
São capazes
De renovar qualquer voto
E sei que não noto
O tamanho da franja
Ou da sobrancelha
Mas guria, eu só sei
Que meu maior acerto
Foi ter negado um gole
Tá, não é mole
Da tua tequila
E pedido em troca
O primeiro beijo
Com gosto de amor
E que foi o esboço
De tudo que somos
E que vamos ser
Amanhã ou depois
Sempre nós dois
Como mais esse dia
Vinte e quatro de setembro
Cinco anos do start
No meio da luta
Tekken quase arte
Da nossa felicidade.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

No bolicho (ou o choro de um farrapo já cansado)

Mais uma noite
não sei, talvez por sorte
como o cusco dos grito
escapo da morte.
O dia todo peleando
Matando e morrendo
Correndo e gritando
Sem poder sentir medo.

Mas aqui nesse banco
onde, é verdade,
cheguei aos trancos,
acho serenidade
num trago de canha
como pinto no lixo
pequena alegria, tacanha
me acho nesse bolicho

Hoje vi companheiros
Partindo de vez dessa,
indo, aos berreiros,
o sangue na cabeça
escorrendo nos beiço
encharcando o lenço
Os vivente deixando
de dar sentido à palavra
Deixando de viver
Deixando de ser vivente.
Não deixamos por menos,
eu e mais outros
viventes dos meus
muita lança cravamos
em peito de imperial
muito cavaleiro treinado
deixamos deitado
nessa peleia brutal.

Lá fora eu já matei
muita gente
não por mal (e nem por bem)
mas preciso pelear
pelo que meu povo defende
a qualquer custo
ainda que de susto
eu acorde na madrugada
com a garganta embargada
os olhos molhados
e a mão já puxando
a adaga debaixo do pelego.

Aqui dentro eu mato
as amarguras da guerra,
limpo o sangue e a terra
que tenho nas vista
talvez ainda assista
a fugidela pro mato
dos amigos mais curtidos
com as chinas mais lindas
e no canto de lá
o gaiteiro se esforça
pra manter o momento
em dimensão paralela
somente ele e ela,
sua gaita faceira
arriscando a vaneira
enquanto entro no copo
por inteiro
abraçado na garrafa
ouvindo o tiroteio
insistente no ouvido
ecoando o dia alheio
a mais essa noite
embriagada, jocosa
fria e mentirosa
de um bolicho cheio
de farrapos sem amanhã.

Agora dá três horas
e depois de um baita
de um bochincho bem feio
em que quebrou-se a gaita
e correu o chinedo
e o gaiteiro puxou
de uma faca graúda
enferrujada e velha
e os que não eram
tão tauras assim
se assustaram e fugiram
e eu, desatei a chorar
sou feito de coragem
diga-se de passagem
mas se nem no bolicho
não posso fugir
de ver o sangue escorrer
e quem sabe até
da bala comer,
eu desisto.
Me vou embora
que logo é outro dia normal
e a guerra que segue,
ela me espera, pontual.

sábado, 20 de agosto de 2016

Sexta-feira

Ao passo que a esperança,
nessas andanças,
aos poucos se esvai,
o coração vai pesando,
a voz embargando,
cada vez mais.
Cada vez mais,
a gente procura refúgio,
numa carapaça,
algo que proteja.
Dentro das canecas,
alguma cachaça,
qualquer imersão que seja.
Quando menos se espera,
um mergulho no rio gelado,
enquanto na janela a cidade passa,
e no borrão nem árvore se vê.
Algo a falar, sempre se tem,
mas soa dolorido,
quando a cinquenta por cento de preto
está todo o colorido,
da caixa de lápis de cor,
da caixa de giz de cera,
das roupas bonitas,
do brilho dos olhos
cor de mel do avatar.
A tristeza é sacana,
vai pelas beiradas,
espreme os olhos e, na marra,
tenta deles tirar água,
essa mesma que alagou a rua,
que está nas poças,
que amanhã vai evaporar,
e que ainda da janela eu vejo ser
vital,
tão igual,
tão diferente,
e que mata a gente.
O grito preso na garganta,
o silêncio solto no espaço,
o vácuo,
sem saber como proceder,
o fim do texto,
do riso,
do fim de semana,
da epopeia do Odisseu,
da semana inteira,
da falta de esperança,
nessas andanças,
de uma molhada,
e frustrada,
sexta-feira.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

No osso

A manta encobre
a marca no pescoço
e eu aguento, no osso
o que pode ser
sem ninguém saber
só mais um dia ruim.
A fotografia ideal
na voz muda do oxigênio
ora por aparelhos
ora por gemidos
tão esbaforidos
que se olham no espelho
ou na lanterna vermelha
da tela do telefone celular
que molha e sua
e seca e fica
grudado por dias
como um sopro quieto
que causa alvoroço
mas eu aguento, no osso.

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Existir é bom

Gosto quando a gente fica ali parado,
sentado, em pé ou deitado
e também quando a gente
anda pra lá e pra cá.
Gosto de sentir o gosto
da lindeza do teu rosto
e de sentir o cheiro
que entrega, por inteiro,
que tu está ali
a um palmo de um abraço,
um beijo num curto espaço
mostrando que é bom existir.

Gosto quando te olho no olho
e vejo como ele brilha
e nesse brilho encontro um céu
todo doce, um pote de mel.
Quando tu abre a boca
e dela sai uma coisa boa
que bate no meu ouvido e cai
despenca, batendo nas quinas
acelerada, vai
sem nem parar nas esquinas
e se acomoda no colchão
da cama macia do meu coração.

Gosto quando eu canto
e tu gosta de me ouvir cantar
e tu pede outra música
e sorri por me ver tentar.
Gosto da tua cara de sono
da tua cara amarrada
da tua cara de riso
tudo o que eu preciso
pra te fazer um carinho
pra ficar ali juntinho
enquanto tu me faz lembrar
por que é tão bom existir.


quarta-feira, 27 de julho de 2016

Batatas

O trem das oito
chegou devagar
enquanto o outro
tentava explicar.
Explicar o quê?
Que estava comigo?
Ria entre amigos
Inocente porquê.
Então nesse trem
a gente se foi
e com ela, não sei,
me diria depois.
A verdade que há
na amizade que lá
faz morada e se cerca
de muros de corações abertos.
Ela não vê que é normal
não percebe o tamanho do mal
que àquele bom homem, faz.
A loucura, de tudo é capaz.
A felicidade estava
nas batatas fritas
nas amigas, aflitas
pela hora que voava.
Fiquei contente em revê-los
depois de um dia corrido,
nem passei pente nos cabelos,
mas nem teriam percebido...
O que valeu foi o encontro
o riso fácil, as piadas
os venenos, em pitadas
a vontade da quarta outra.
No trem o papo se estendeu
meio no telefone, meio não
Estação Canoas e então desceu
com um abraço e um aperto de mão.